A indústria do vinho costuma apontar a Geração Z como uma das principais responsáveis pela redução do consumo em determinados mercados. Jovens estariam mais interessados em bem-estar, experiências e bebidas sem álcool do que em garrafas de vinho. Mas será que essa geração realmente perdeu o interesse pelo vinho ou o setor está fazendo as perguntas erradas?
Essa é a provocação de Benjamin Jack, filho do produtor sul-africano Bruce Jack, em um artigo publicado no The Drinks Business. Após passar um ano frequentando degustações, festivais e eventos do setor, ele chegou a uma conclusão incômoda: o problema pode estar menos nos jovens e mais na maneira como a indústria apresenta o vinho a eles.
Quando conhecer vinho parece exigir um curso
Para quem já está familiarizado com o universo do vinho, denominações de origem, safras, variedades de uva e avaliações de críticos fazem parte do prazer da descoberta. Para quem está começando, porém, esse conjunto de informações pode funcionar como uma barreira.
Imagine entrar em uma loja e encontrar centenas de garrafas identificadas por regiões, classificações e nomes desconhecidos, sem saber qual combina com seu gosto ou com a ocasião. Em vez de despertar curiosidade, a experiência pode provocar insegurança. A sensação é de que existe um conhecimento prévio necessário para escolher corretamente.
Na visão de Jack, enquanto outras categorias de consumo investiram em tornar a escolha mais intuitiva, o vinho continuou valorizando códigos que nem sempre são acessíveis aos iniciantes. O desafio não seria eliminar sua riqueza, mas facilitar o primeiro contato.
O que o Sauvignon Blanc ensina sobre comunicação
O autor cita o sucesso do Sauvignon Blanc da Nova Zelândia no mercado britânico como exemplo de comunicação eficiente. A variedade, a origem e o perfil de sabor tornaram-se referências relativamente fáceis de compreender, ajudando consumidores a identificar o que poderiam encontrar na garrafa sem precisar dominar todo o vocabulário do vinho.
A lição é importante: explicar um vinho de maneira acessível não significa diminuir sua qualidade ou simplificar artificialmente sua história. Significa oferecer informações que ajudem o consumidor a fazer uma escolha com mais confiança.
Histórias e experiências também aproximam
Jack aponta iniciativas de comunicação mais acessível e o movimento dos vinhos naturais como exemplos de caminhos capazes de despertar o interesse de consumidores mais jovens. Nesses casos, a conexão pode começar pela história do produtor, pela identidade do vinho, pela experiência de consumo ou pelos valores associados à marca.
Essa abordagem muda o ponto de partida. Em vez de exigir que o consumidor aprenda primeiro sobre o vinho para depois apreciá-lo, permite que a curiosidade e a experiência conduzam à descoberta. O conhecimento pode vir como consequência do interesse, e não como requisito de entrada.
O risco de pensar apenas no consumidor de hoje
Outro argumento do autor diz respeito ao horizonte de planejamento da indústria. Marcas e varejistas têm razões comerciais para concentrar esforços nos consumidores que já compram vinho regularmente. Investir na conquista de novos públicos exige tempo, recursos e resultados que nem sempre aparecem no curto prazo.
O risco, segundo Jack, é adiar continuamente esse investimento enquanto a base atual de consumidores envelhece. Ele também critica a fragmentação do setor, no qual produtores, importadores, varejistas e comunicadores nem sempre trabalham de forma coordenada para aproximar novas pessoas da categoria.
O artigo ainda destaca o preço como uma barreira no Reino Unido: quando as opções de entrada ficam caras demais, torna-se mais difícil oferecer ao iniciante uma primeira experiência satisfatória. Essa realidade não pode ser automaticamente transferida para o Brasil, onde impostos, distribuição, renda e estrutura de preços são diferentes, mas levanta uma questão relevante para qualquer mercado.
Como tornar o vinho mais convidativo?
A reflexão de Benjamin Jack aponta para mudanças práticas: descrever os vinhos com linguagem clara, ajudar o consumidor a encontrar estilos de que goste, investir em experiências de descoberta e contar histórias que façam sentido para diferentes públicos.
Isso não exige abandonar a tradição, as regiões produtoras ou a profundidade cultural do vinho. Exige reconhecer que nem todo consumidor deseja começar estudando mapas, classificações e safras. Algumas pessoas querem apenas encontrar uma garrafa agradável para compartilhar com amigos e, a partir daí, descobrir novos estilos.
Para o comércio, a oportunidade está em aproximar informação e escolha: explicar diferenças sem intimidar, recomendar sem impor regras e mostrar que não existe uma única maneira correta de começar a apreciar vinho.
A provocação final de Jack merece ser considerada: talvez a Geração Z não esteja simplesmente rejeitando o vinho. Talvez parte do setor ainda não tenha encontrado a melhor maneira de convidá-la a participar dessa cultura.
O desafio não é tornar o vinho menos interessante. É tornar a descoberta mais acessível.








