Toda poda deixa uma ferida. E é justamente por esses cortes que entram muitos dos fungos ligados às chamadas doenças da madeira da videira, um problema que pode afetar a vitalidade das plantas e comprometer sua produtividade e sua longevidade. Na Rioja, um grupo de pesquisadores quer testar uma solução que parece saída de um filme de ficção científica: proteger essas feridas com laser, sem recorrer a tratamentos químicos.
O projeto se chama "Sistemas laser como ferramenta de bloqueio para infecções da madeira" e vai acontecer entre 2026 e 2029 em um vinhedo de Medrano, na Rioja. A coordenação é de Pablo Isaac Mayoral. Pelo Instituto de Ciências da Videira e do Vinho (ICVV), participa David Gramaje, cientista titular do CSIC, responsável pelo acompanhamento fitopatológico e pelas análises que vão detectar a presença dos fungos.
Até aqui, o trabalho foi de preparação. Na primeira fase, a equipe ajustou e calibrou o sistema de laser e fez testes preliminares em condições controladas, sobre madeira de videira e outros materiais lenhosos. O objetivo era encontrar os parâmetros certos de aplicação e evitar danos profundos aos tecidos da planta. O próximo passo vem no inverno europeu, quando começam os testes no vinhedo: as feridas de poda tratadas com laser serão acompanhadas com amostragens e análises microbiológicas e moleculares.
E aqui vale a honestidade que a própria pesquisa faz questão de ter. Os testes preliminares serviram para ajustar o equipamento, mas ainda não permitem afirmar que o laser reduz as infecções em condições reais de cultivo. Só os resultados de campo vão mostrar se a técnica funciona, quais são seus limites e em que situações poderia ser usada.
Há algo de curioso nessa história. A poda é um dos gestos mais antigos da viticultura, repetido há séculos com a mesma tesoura e o mesmo cuidado. Agora, a tecnologia mais moderna se oferece para cuidar do que vem depois do corte. Se der certo, o vinhedo ganha uma ferramenta física, sem química, contra um dos problemas que mais ameaçam a vida das videiras. Se não der, terá sido mais uma prova de que, no vinho, a pressa raramente é boa conselheira. A resposta só chega em 2029.
Enquanto o laser não sai da fase de testes, a Rioja continua chegando à taça do jeito tradicional. Os tintos da região no nosso acervo estão aí para quem quiser brindar ao futuro dela.








