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03/06/2026
O vinho rosé pode ser considerado um vinho fino?
Em um recente debate organizado por Liberation Tardive e Elizabeth Gabay MW no Royal Overseas Club de Londres, importantes nomes do setor exploraram a questão de se o rosé pode ser classificado como um vinho fino. O consenso foi: pode sim, mas exige uma nova perspectiva
A Liberation Tardive, uma organização global sem fins lucrativos que promove um mercado sustentável para vinhos finos de guarda, em parceria com Elizabeth Gabay MW, organizou o debate e a degustação, que contou com a participação de Rebecca Palmer (Corney & Barrow), Richard Bampfield MW, Siobhan Turner MW e Pauline Vicard (ARENI Global). Mais de 20 vinhos foram servidos, de regiões como Provence e Bandol, passando por Rioja e Líbano, enquanto o painel discutia o que define um rosé "fino".

Gabay iniciou a discussão observando que a categoria rosé "ainda não está definida", chamando-a de "um espaço em branco" repleto de potencial criativo, mas também de desafios comerciais. "É extremamente empolgante porque há muita liberdade em torno disso", disse ela. "Mas isso também significa que será muito desafiador comercialmente. Por que esse vinho vale a pena ser vendido a um preço premium?"

Para Gabay, o futuro do rosé reside na disposição dos produtores em acreditar na categoria além da sua cor. “Muitos produtores estão criando rosé porque se sentem obrigados, e não porque realmente acreditam nele”, destacou ela, um ponto reforçado por Bampfield, que citou Bordeaux como “muito culpada” disso. “Precisamos que o rosé seja levado a sério pelos produtores”, acrescentou. “E o mercado também precisa levá-lo a sério.”

Definindo um vinho fino

Vicard, da ARENI Global, delineou a estrutura da organização para o que constitui um vinho fino, com base em pesquisas internacionais em mercados que vão da França a Hong Kong. “Para que um vinho seja considerado fino tanto pelo mercado quanto pelos consumidores, ele precisa de cinco coisas: qualidade objetiva, subjetividade, visão, sustentabilidade e reputação”, explicou.

Um vinho fino, disse ela, “não acontece por acaso”. Requer “visão” do enólogo e a capacidade de envelhecer. “Qualidade pode ser vista como a capacidade de atravessar o tempo”, destacou ela. “Um vinho fino também precisa parar o tempo – precisa impressionar o apreciador.”

Ela acrescentou que o vinho fino não se resume apenas ao apelo intelectual, mas também ao impacto prático ao longo da cadeia de suprimentos: “Saber qual é a sua posição influenciará a forma como você gerencia a visibilidade, a desejabilidade e a compra.”

A questão do envelhecimento

Grande parte do debate da noite girou em torno da capacidade de envelhecimento do rosé. Palmer, falando a partir de sua experiência no mercado secundário, afirmou: “É preciso ter capacidade de envelhecimento. Seja para investir visando lucro futuro ou para o prazer futuro, você quer ter a certeza de que o vinho que compra agora será pelo menos tão prazeroso daqui a dez anos.”

Embora o López de Heredia Viña Tondonia, da Rioja, continue sendo um dos poucos rosés negociados no mercado secundário, Palmer argumentou que outros exemplos poderiam surgir: “Definitivamente, existem vinhos aqui que, embora ainda não tenham um lugar garantido no mercado secundário, eu poderia defender com veemência a compra agora para serem apreciados daqui a alguns anos.”

No entanto, ela também alertou contra a equiparação de “vinho fino” unicamente com colecionabilidade. “Há uma diferença entre um vinho fino e um vinho destinado ao mercado secundário”, apontou ela. “Encontro finesse em muitos vinhos que não se destinam a esse mercado.”

Bampfield concordou, observando que a idade por si só não define a qualidade. “Não acredito que a idade seja algo bom apenas por si só”, afirmou ele. “O único vinho que provo que é consistentemente fabuloso em idades avançadas é o Madeira.”

Ainda assim, ele reconheceu o valor da idade para revelar a complexidade potencial do rosé: “Muitas vezes vemos que um rosé muito simples se torna mais complexo depois de alguns anos. Os rosés precisam de idade para revelar grande complexidade, não apenas acidez vibrante.”

Turner compartilhou dessa opinião, observando que “muitos rosés muito jovens são muito frescos e vibrantes, mas raramente complexos”. Ela enfatizou a necessidade de os produtores demonstrarem a longevidade de seus vinhos: “Se você diz que seu vinho envelhece, precisa nos mostrar.”

Indo além da cor e da categoria

Turner também destacou o que considera uma falha central na forma como o rosé é percebido: “Não estaríamos tendo esta conversa sobre se o vinho branco pode envelhecer. Aqui, estamos falando de rosé como se fosse uma coisa só – e esse é parte do problema. A categoria precisa de diferenciação.”

Ela argumentou que a percepção do consumidor ainda gira em torno de um único estilo: “As pessoas entram e pensam: ‘Quero um rosé’, mas o que provavelmente querem é um rosé provençal pálido. Precisamos começar a pensar no rosé de uma forma mais diferenciada.”

Marcas, coletivos e colaboração

O painel também abordou como o rosé de alta qualidade poderia alcançar maior visibilidade e prestígio. Bampfield apontou a importância da marca e da exportação: “Mais desses vinhos estão sendo vendidos em todo o mundo. Pode-se argumentar que a marca é mais importante do que a denominação de origem.”

Vicard acrescentou que a colaboração será fundamental para o sucesso da categoria: “Na maioria das vezes, no ramo de vinhos, não temos o mesmo investimento em marketing que o setor de destilados”, comparou ela. “Até agora, a visibilidade e o desejo pelo vinho vinham da identidade regional. O rosé pode ser o produto que transcende isso e cria uma representação extrarregional de vinhos finos. Mas não pode ser apenas um produtor – é necessário um esforço coletivo.”

“O rosé pode ser excelente por si só”

Em última análise, o painel concordou que o rosé pode, de fato, ser considerado um vinho fino – quando feito com intenção, qualidade e paciência. Como Gabay concluiu: “Precisamos parar de olhar para o rosé como uma única categoria. Um bom rosé merece ser tratado com seriedade – ser respeitado e apreciado pelas sutilezas que desenvolve com o tempo. O rosé não precisa imitar ninguém; ele pode ser excelente por si só.”

Fonte: The Drinks Business
 

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