O vinho chileno acaba de levar seu pior tombo em anos, e não por culpa do que está dentro da garrafa. Segundo o gremio Vinos de Chile, as exportações aos Estados Unidos despencaram 33% em valor e 23% em volume no primeiro semestre de 2026. Para efeito de comparação, nos demais mercados a queda ficou em cerca de 8%. A diferença é gritante, e tem nome: tarifa.
Desde 24 de julho, os vinhos chilenos engarrafados passaram a pagar uma sobretaxa adicional de 12,5% para entrar nos Estados Unidos, substituindo a tarifa temporária de 10% que já vigorava desde abril de 2025. O detalhe que torna a história peculiar é o motivo alegado. A medida partiu de uma investigação americana sobre trabalho forçoso em cadeias produtivas, e o vinho simplesmente foi arrastado junto, sem que a bebida ou o setor fossem o alvo. Frutas frescas, salmão e madeira chilena caíram na mesma rede. Abacates, kiwis e laranjas escaparam. O vinho, não.
O impacto foi imediato. De acordo com Claudio Cilveti, gerente-geral do gremio, os preços do vinho chileno no mercado americano subiram cerca de 10%, e em uma categoria conhecida justamente pela boa relação entre preço e qualidade, encarecer significa perder volume rápido. A participação do Chile nas importações de vinho dos Estados Unidos, que era de 6,1% em 2024, sob a proteção do tratado de livre comércio, caiu para 5,4%. O país, que já disputou o primeiro lugar entre os fornecedores no início dos anos 2000, hoje é o sexto.
Diante do golpe, a indústria chilena corre para negociar a exclusão do vinho da lista, mas admite ter pouco espaço de manobra. Por ser um setor maduro, já está diversificado, e mercados alternativos como Índia, Filipinas e Bangladesh, nas palavras do próprio gremio, não mudam o jogo. A exceção positiva foi o Canadá, que, em meio aos próprios atritos com Washington, tirou produtos americanos das prateleiras e abriu espaço para o vinho chileno.
E é aqui que a história interessa diretamente a quem bebe no Brasil. Enquanto os Estados Unidos se fecham, o Brasil segue firme como o principal destino do vinho engarrafado chileno. A conta é simples: um produtor com excedente, preço pressionado e um vizinho logisticamente próximo e faminto por bons rótulos tende a olhar para o sul. Traduzindo, é provável que ainda mais vinho chileno, e em melhores condições, venha parar nas nossas prateleiras.
Há uma ironia geopolítica em tudo isso. Uma caneta assinada em Washington, por razões que nada têm a ver com uvas, acaba redesenhando o que o brasileiro vai encontrar na loja. O vinho, essa bebida que insiste em parecer atemporal, nunca esteve tão à mercê das manchetes.








