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O vinho tinto foi associado a menor risco de morte que cerveja e destilados

Um estudo com mais de 340 mil britânicos, acompanhados por 13 anos, sugere que quem bebe vinho em quantidade leve a moderada morre menos por doença cardíaca do que quem bebe a mesma dose de álcool em outras bebidas. A ciência pede cautela, e a taça, um brinde contido.

De vez em quando, a ciência traz uma notícia que o apreciador de vinho lê com um sorriso discreto. Esta é uma delas, com uma ressalva importante que veremos adiante. Segundo uma pesquisa apresentada na Sessão Científica Anual do Colégio Americano de Cardiologia, em Nova Orleans, quem bebe vinho em quantidades leves a moderadas apresentou menor risco de morte prematura do que quem consumiu a mesma quantidade de álcool vinda de cerveja, sidra ou destilados.

Os números impressionam pela robustez da amostra. A equipe liderada por Zhangling Chen, professora do Segundo Hospital Xiangya, na China, usou dados do UK Biobank e analisou 340.924 pessoas entre 2006 e 2022, com idade média de 46 anos e acompanhamento médio de 13,4 anos. As que bebiam até 10 taças de 150 ml por semana, no caso das mulheres, ou até 20, no caso dos homens, tiveram 8% menos probabilidade de morrer por qualquer causa e até 21% menos por causas cardiovasculares, em comparação com quem nunca bebia ou bebia apenas ocasionalmente. Os consumidores de vinho tinto pareceram se beneficiar mais.

O contraste com as outras bebidas é o dado mais chamativo. Segundo o estudo, pessoas que consumiam a mesma quantidade média semanal de álcool por meio de cerveja, sidra ou destilados tiveram 9% mais probabilidade de morrer por doenças cardiovasculares, além de maior risco de morte por causas não cardíacas, principalmente câncer. Como resumiu a própria autora, o que a surpreendeu foi ver como até quantidades moderadas de álcool, dependendo da bebida, se associam a desfechos de saúde tão diferentes.

Antes do brinde, o freio de mão, e ele é essencial. Este é um estudo observacional, o que significa que mostra uma associação, não uma relação de causa e efeito. Traduzindo, ninguém provou que o vinho protege o coração, apenas que quem o bebe com moderação tende a viver mais. E a própria pesquisadora aponta uma explicação alternativa e desconfortável: quem bebe vinho em pequenas doses costuma ter um estilo de vida mais saudável no geral, come mais frutas e verduras, se exercita mais e fuma menos. O vinho pode ser menos a causa da saúde e mais o retrato de quem já vive bem.

Ainda assim, há pistas de que a bebida tenha mérito próprio. O vinho, sobretudo o tinto, contém polifenóis e antioxidantes que podem combater a inflamação, reduzir o colesterol ruim e melhorar a função vascular. E o contexto do consumo pesou: beber durante as refeições mostrou associação mais saudável, enquanto beber de estômago vazio elevou o risco em todas as bebidas, provavelmente pela absorção mais rápida do álcool. O vinho da mesa mediterrânea, acompanhando a comida, parece ser a forma mais sensata de brindar.

Um último aviso que o próprio estudo grava a fogo: o benefício desaparece no excesso. Quem ultrapassou a dose moderada, independentemente da bebida, teve o maior risco de todos, com 24% mais chance de morrer por qualquer causa e 36% a mais por câncer. A dose, como sempre no vinho, é a fronteira entre o prazer e o problema. Paracelso já dizia que a diferença entre o remédio e o veneno está na quantidade. Cinco séculos depois, a cardiologia parece concordar com o velho alquimista.

Fonte: Wine Spectator

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