Existe um velho hábito no mundo do vinho que parece cada vez mais ultrapassado: enxergar tudo o que não é europeu como uma tentativa de imitar a Europa. Um bom Malbec vira "quase um Bordeaux". Um Pinot chileno é apresentado como "um Borgonha do Novo Mundo". Pois a edição de setembro da Decanter, uma das revistas de vinho mais influentes do mundo, resolveu confrontar esse hábito de frente e colocou a América do Sul no centro das atenções.
O dossiê é generoso e específico. Na seção batizada de "Pure Chile", o Master of Wine Alistair Cooper apresenta oito produtores chilenos dedicados a fazer vinhos que expressam com fidelidade as próprias origens. Em "Cru Mendoza", Alejandro Iglesias destaca três áreas do Vale do Uco, na Argentina, que merecem atenção pela diversidade de estilos de Malbec. Há ainda uma reportagem de Amanda Barnes, também Master of Wine, sobre o potencial finalmente reconhecido da América do Sul para produzir Pinot Noir de alta qualidade, além de degustações dedicadas a brancos e espumantes sul-americanos de bom valor.
O tom, porém, é dado pela coluna convidada. Adrianna Catena, filha de Nicolás Catena, um dos nomes que colocaram o Malbec argentino no mapa mundial, assina um texto em que critica a visão eurocêntrica ainda predominante sobre os vinhos da sua região. A editora da revista, Amy Wislocki, endossa a crítica sem meias palavras, ao escrever que é ridículo continuar avaliando esses vinhos por uma régua europeia. Para uma publicação sediada em Londres, é uma admissão e tanto.
Para o Brasil, a leitura tem um sabor especial, e por um motivo prático. Chile e Argentina não são, para nós, vinhos exóticos vindos de longe. São os nossos vizinhos, os rótulos que enchem as prateleiras e as taças do dia a dia do brasileiro. Enquanto o europeu ainda redescobre a Patagônia e o Vale do Uco com ares de novidade, nós convivemos com esses vinhos há décadas. Talvez, por estarmos perto, tenhamos entendido antes o que a Decanter só agora reconhece: que esses vinhos falam uma língua própria, e não uma versão da francesa.
Há uma justiça poética em ver a região sair da sombra. Por gerações, o vinho sul-americano foi vendido pelo preço e desculpado pela origem, como se precisasse pedir licença para estar na mesma taça que os grandes. A virada não é sobre superar a Europa, e sim sobre parar de se comparar a ela. Como todo bom vinho, e toda cultura madura, o Cone Sul parece ter chegado ao ponto de só precisar ser aquilo que é.
Fica o convite implícito, que a própria revista faz aos seus leitores europeus e nós fazemos aos nossos: da próxima vez que abrir um chileno ou um argentino, esqueça a régua. Prove o vinho pelo que ele é, e não pelo que ele lembra. É provável que a surpresa esteja justamente ali, naquilo que ele tem de único.








