Toda geração acha que inventou o prazer. A geração Z, ao que parece, resolveu reinventar o do vinho. Uma reportagem da edição de setembro da Decanter, assinada por Marianna Hunt e batizada de "Frango frito e raves", explora os modos pouco convencionais como os mais jovens estão se aproximando do mundo do vinho. E a mensagem, para quem vê a taça como um templo, é levemente desconcertante: eles gostam, mas não vão pedir licença.
O título da matéria já entrega o espírito. Enquanto o consumidor tradicional aprendeu que vinho pede prato nobre, toalha passada e silêncio reverente, a nova geração harmoniza um tinto com frango frito e leva o vinho para a pista de dança. Onde havia liturgia, agora há descontração. Onde se esperava um Bordeaux num jantar formal, aparece uma taça numa festa eletrônica. O vinho saiu da sala de jantar dos pais e foi parar em lugares que o marketing do setor nunca havia imaginado.
E o fenômeno não é exatamente uma surpresa para quem observa o mercado. Há tempos os dados mostram uma geração que bebe menos álcool no total, que rejeita as regras rígidas de harmonização e que valoriza a experiência e a autenticidade acima do status. Para eles, um rótulo não vale pela pontuação de um crítico, e sim pela história que conta e pela companhia que acompanha.
É fácil, para o apreciador clássico, torcer o nariz diante disso. Beber um grande tinto com frango frito soa quase como heresia, uma afronta a séculos de etiqueta. Mas talvez a etiqueta seja justamente o problema. O vinho passou décadas se vendendo como algo sério, complicado e um tanto intimidador, e depois se surpreendeu ao ver os jovens preferirem a cerveja artesanal e o coquetel, bebidas que nunca os fizeram sentir que precisavam estudar antes de brindar. A geração Z não está desrespeitando o vinho. Está apenas se recusando a ter medo dele.
E há uma sabedoria involuntária nessa irreverência. Ao arrancar o vinho do pedestal, esses jovens talvez estejam devolvendo a ele algo que a solenidade havia sufocado: o simples prazer de beber sem cerimônia. Afinal, antes de virar objeto de colecionador e assunto de especialista, o vinho era, e sempre foi, uma bebida de mesa, de festa, de gente reunida. Os romanos não faziam degustações às cegas. Bebiam, conversavam e riam.
No fim, quem ganha com isso é o próprio vinho. Uma bebida que não conquista os jovens é uma bebida com prazo de validade, e a geração Z, do seu jeito barulhento e sem reverência, está garantindo que a taça continue cheia nas próximas décadas. Que seja com frango frito, então. O importante é que a garrafa siga sendo aberta.
E você, de que lado fica: o vinho pede cerimônia, ou combina com qualquer momento que valha a pena?








